Arqueólogos confirmam localização do maior cemitério de escravizados da América Latina em Salvador

Uma descoberta histórica foi anunciada nesta segunda-feira (26), durante coletiva de imprensa realizada na sede do Ministério Público da Bahia, em Salvador. A arqueóloga Jeanne Dias revelou a identificação das primeiras ossadas humanas no estacionamento do Complexo da Pupileira, no Centro da capital baiana, confirmando o local do antigo Cemitério do Campo da Pólvora — considerado o maior cemitério de escravizados da América Latina.

O sítio arqueológico, que funcionou até 1844, foi utilizado para sepultar pessoas marginalizadas pela sociedade, incluindo pobres, não-batizados, suicidas, criminosos, prostitutas, insurgentes e escravizados. Entre os corpos enterrados, estão inclusive os mártires da Revolta dos Malês.

As escavações duraram dez dias e foram realizadas por uma equipe formada por cinco arqueólogos experientes em contextos funerários. A intervenção revelou fragmentos de ossos e dentes a 2,5 metros de profundidade. Por conta da fragilidade do material, causada pela umidade e acidez do solo, as imagens das ossadas não foram divulgadas.

“Esse trabalho simboliza o respeito à memória dos indivíduos aqui enterrados e que tiveram suas histórias apagadas”, destacou o arqueólogo Railson Cotias. Já Jeanne Dias reforçou a importância da descoberta: “É uma contribuição essencial para que a sociedade possa refletir sobre a história e trajetória dessas comunidades negras que foram escravizadas no Brasil”.

O projeto foi financiado pela empresa Arqueólogos (Cotias e Dias LTDA), com base em uma pesquisa documental da arquiteta Silvana Olivieri, doutoranda em Urbanismo pela UFBA. Também contou com o apoio do professor de Direito Samuel Vida, que participou da elaboração do Dossiê Cemitério do Campo da Pólvora, encaminhado aos órgãos de proteção do patrimônio.

Com a conclusão da escavação inicial, a próxima etapa é a análise dos vestígios encontrados e a discussão sobre a preservação e valorização do sítio arqueológico, que tem profundo valor histórico, cultural e espiritual para a Bahia e o Brasil.