Especialista alerta sobre riscos da adultização infantil nas redes sociais e defende regulamentação
A chamada adultização infantil — quando crianças e adolescentes são expostos a comportamentos, conteúdos e situações próprias do universo adulto — tem ganhado destaque nas redes sociais e chegou ao debate no Congresso Nacional. O tema voltou ao centro das discussões após a repercussão de um vídeo do influenciador Felca, que denunciou casos de superexposição de menores em plataformas digitais.
Na Câmara dos Deputados, tramita o Projeto de Lei 2628/2022, que busca regulamentar a atividade laboral de crianças e adolescentes no ambiente digital e criar mecanismos de proteção. A proposta é impulsionada por denúncias de influenciadores e pela mobilização de organizações da sociedade civil.
Para a advogada Alessandra Tanure, especialista em Direito Digital com foco na proteção da infância, o problema vai além da exposição cotidiana. “Crianças não têm maturidade emocional ou cognitiva para compreender os riscos. A adultização pode envolver exposição vexatória, exploração da imagem e até conteúdos capturados por pedófilos. A prevenção é fundamental e a responsabilidade deve ser compartilhada entre famílias, plataformas e poder público”, afirma.
Um dos fatores mais graves, segundo a especialista, está nos algoritmos das plataformas digitais, que priorizam publicações de maior engajamento, inclusive aquelas com teor sexualizado. “A lógica de recomendação pode expor crianças a uma cadeia de conteúdos nocivos sem qualquer filtro adequado de proteção”, alerta.
A exposição digital precoce traz danos duradouros à imagem, à honra e à privacidade, e o problema se agrava quando há monetização e publicidade envolvidas. “Quando a exposição infantil se vincula a incentivos financeiros, há um estímulo para que a violação se perpetue”, pontua Alessandra.
Para ela, os pais têm papel essencial como agentes de proteção, mas não devem agir sozinhos. “As plataformas precisam assumir responsabilidades efetivas, removendo conteúdos nocivos com rapidez e investindo em políticas preventivas. Já os pais devem acompanhar e supervisionar ativamente a vida digital dos filhos”, reforça.
Apesar do avanço do PL 2628/2022, a especialista ressalta que a regulamentação é apenas parte da solução. “Mais do que leis, precisamos de uma mudança cultural que reconheça a infância como etapa a ser preservada. O digital deve ser um espaço de aprendizado e convivência saudável, não de exploração”, conclui.