Especialista critica ausência de influenciadores baianos em grandes eventos realizados em Salvador
A baixa presença e contratação de influenciadores baianos em grandes eventos realizados em Salvador tem gerado críticas no mercado criativo e de comunicação do estado. Apesar de sediar festivais e projetos culturais que movimentam milhões de reais e ganham projeção nacional, a capital baiana ainda é tratada, segundo especialistas, apenas como cenário, sem protagonismo de quem produz conteúdo e constrói narrativas a partir do próprio território.
O debate ganhou força após a realização recente do Festival de Verão, um dos principais eventos culturais da cidade. A contratação considerada irrisória de influenciadores locais chamou atenção de profissionais do setor, que veem no episódio um reflexo de um problema estrutural do marketing de influência no Brasil: a priorização recorrente de talentos de fora da Bahia em festivais, ativações de marca e grandes projetos realizados em Salvador.
Para Juliana Salema, CEO da +Q Creators e advogada especialista em marketing de influência, essa prática revela uma distorção nas estratégias adotadas pelas marcas. “Existe uma dificuldade do mercado em reconhecer o valor estratégico dos influenciadores locais. Salvador entrega cultura, engajamento e repertório simbólico, mas segue sendo tratada apenas como pano de fundo das campanhas”, afirma.
Dados de mercado indicam que influenciadores do Norte e Nordeste recebem, em média, entre 40% e 60% menos que criadores do Sudeste, mesmo quando apresentam métricas semelhantes de seguidores, engajamento e nicho. Além da desigualdade de cachês, a forma de acionamento também é alvo de críticas. Segundo Juliana, influenciadores baianos costumam receber apenas convites, geralmente com acesso à pista, enquanto talentos de fora contam com contratos remunerados, camarotes, hospedagem e logística.
Outro ponto sensível envolve cláusulas de exclusividade. Em segmentos como bebidas e financeiro, propostas impõem restrições que impedem o influenciador de fechar parcerias com marcas concorrentes por até três meses. “Convite não é parceria. Quando a marca utiliza imagem, alcance e criatividade, existe prestação de serviço. Sem remuneração, o criador local perde valor de mercado”, explica.
A crítica também alcança a questão da diversidade. Em uma cidade majoritariamente negra e marcada pela ancestralidade africana, a baixa presença de influenciadores negros em eventos patrocinados por grandes marcas é vista como um apagamento simbólico. Soma-se a isso a atuação de equipes de relações públicas vindas de outros estados, que chegam com estratégias prontas, sem diálogo com a cultura local.
Para a especialista, valorizar influenciadores do território é inteligência de comunicação e estratégia de marca. Salvador não carece de talento. O que ainda falta é reconhecimento real do valor que já existe no território.