Exposição ‘Candomblé’ leva fotografia baiana ao Paraguai e fortalece diálogo afrodiásporico
A identidade afro-brasileira ganhou espaço de destaque em Assunção com a abertura da exposição “Candomblé”, do fotógrafo baiano André Fernandes, a convite da Embaixada do Brasil no Paraguai. Em cartaz no Instituto Guimarães Rosa (IGR) até março de 2026, a mostra reúne séries que mergulham na ancestralidade e na espiritualidade dos terreiros baianos, com visitação gratuita e aberta ao público.
Recém-premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), André apresenta duas séries que atravessam culturas, crenças e histórias da diáspora: “Orixás”, composta por 15 fotografias feitas no Ilê Axé Alaketu, em Salvador, e “Ounjẹ Òrìṣà – Comida de Orixá”, novo conjunto com 16 obras que celebra a culinária sagrada dos terreiros. As imagens revelam ritos, vestes, tambores e elementos simbólicos que mantêm viva a tradição do Candomblé e reforçam sua importância como patrimônio cultural.
Segundo o artista, o trabalho funciona como uma ponte entre espiritualidade e arte. “Essa série nasceu como gesto de resistência e reparação histórica. Os orixás não são só tema fotográfico, são belezas do Candomblé”, explica. A nova série, produzida a partir de alimentos preparados pelo Tata ria Nkisi Douglas Santana, expande esse olhar ao destacar o papel do alimento como fundamento religioso e memória ancestral. Para a curadora Mai Katz, a culinária exaltada por Fernandes é uma herança transmitida entre gerações e muitas vezes passa despercebida no cotidiano.
O intercâmbio cultural também é um eixo central da mostra. Durante sua permanência no Paraguai, André faz conexão com a comunidade afro-paraguaia de Kamba Cuá, envolvendo crianças locais na produção de 15 desenhos inspirados nos orixás Ibejis. A proposta amplia as fronteiras da exposição e cria um diálogo afetivo entre tradições afro-brasileiras e afrolatinas.
A mostra integra o Circuito de Fotografia El Ojo Salvaje e a Noite dos Museus, reforçando a circulação internacional da obra de André, que já tem nova etapa prevista para 2026, quando “Orixás” seguirá para a Europa, novamente com apoio da ONU. Para o artista, o objetivo é simples e profundo: democratizar a cultura e combater preconceitos. “O axé precisa transbordar. É uma alegria levar nossa história para outros territórios”, afirma.