Livro resgata culinária ancestral afro-brasileira a partir dos saberes de Vovó Cici de Oxalá
Em uma corrida contra o tempo para preservar receitas que estão desaparecendo da mesa baiana, mas seguem vivas nos terreiros de candomblé, será lançado no dia 20 de dezembro, em Salvador, o livro Ajeum Bó: Histórias da Culinária Ancestral. A obra reúne saberes transmitidos oralmente por Vovó Cici de Oxalá, uma das grandes guardiãs da tradição afro-brasileira, e receitas preservadas por Marlene da Costa, referência na culinária de matriz africana e fundadora do Quintal de Yayá.
O livro marca um momento histórico ao registrar, pela primeira vez, conhecimentos ancestrais que atravessaram gerações pela oralidade. Vovó Cici de Oxalá, egbomi com mais de 50 anos de iniciação, griot e guardiã de itãs, trabalhou ao lado do fotógrafo e etnógrafo Pierre Verger e recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seus ensinamentos agora ganham forma impressa, dialogando com o caderno de receitas herdado e preservado por Marlene da Costa.
As páginas de Ajeum Bó conduzem o leitor por uma viagem sensorial que une comida, espiritualidade e história. Pratos como acaçá, efó, abará e mingau de carimã são apresentados junto às narrativas dos orixás, revelando como o candomblé se tornou o grande guardião da culinária ancestral. O efó, por exemplo, hoje raro fora dos terreiros, sobrevive graças à ritualística religiosa, reafirmando a conexão entre alimento e sagrado.
Além das receitas, o livro mergulha nos itãs, histórias que contam a origem de rituais como o Olubajé, a teimosia de Oxóssi, o encantamento da cozinha de Oxum e os caminhos de Omolu. Tudo isso entrelaçado à memória coletiva e à resistência cultural do povo negro na Bahia.
O lançamento acontece no Quintal de Yayá, no bairro de Acupe de Brotas, espaço que gestou o livro ao longo de um ano de imersão cultural e gastronômica. A noite contará com sessão de autógrafos, degustação de pratos presentes na obra e uma experiência imersiva com QR Codes que levam ao áudio das histórias narradas por Vovó Cici no próprio quintal onde foram gravadas.
Viabilizado pelo Programa Rumos Itaú Cultural, Ajeum Bó foi construído com tempo, cuidado e respeito. Como resume a equipe do projeto, o trabalho seguiu “o tempo de Oxalá”, necessário para registrar saberes tão preciosos.
