Pesquisador baiano revela documentos inéditos sobre a chegada da eugenia no Brasil e propõe novo conceito de branquitude
Um estudo inédito do historiador e professor Manuel Alves de Sousa Junior, doutor em Educação pela UNISC e docente do IFBA Lauro de Freitas, antecipa em pelo menos três anos o marco inicial da eugenia no Brasil e propõe uma nova leitura sobre os mecanismos da branquitude no país.
A pesquisa, resultado da tese “Branco com branco, preto com preto: contribuições da educação eugênica para a produção da branquitude no Brasil (1909-1945)”, revela cinco documentos inéditos que indicam que o debate sobre eugenia já circulava na imprensa nacional desde 1909, e não apenas a partir de 1912, como apontavam os estudos anteriores. Os registros, localizados em jornais e revistas da época, citam a Sociedade Eugênica de Londres e as discussões que antecederam o I Congresso Internacional de Eugenia, realizado em 1912.
“Compreender que a eugenia começou no Brasil antes do que se supunha ajuda a repensar o impacto histórico e social dessas práticas sobre populações negras, indígenas, pobres e pessoas com deficiência”, explica Sousa Junior. “Essa constatação muda a forma como analisamos a influência do racismo científico nas políticas públicas, na educação e na cultura.”
A pesquisa mostra como as ideias eugenistas moldaram a constituição da branquitude brasileira, legitimando estereótipos raciais, políticas de imigração seletiva e práticas discriminatórias que persistem até hoje. Segundo o autor, a eugenia não apenas influenciou a ciência e a política, mas também estruturou mentalidades e relações sociais.
Micropoder da branquitude
Além de revisar o marco histórico da eugenia, o pesquisador propõe o conceito de Micropoder da branquitude, entendido como uma forma capilar do biopoder que atua nas relações cotidianas, por meio de gestos, olhares e códigos simbólicos que mantêm privilégios raciais.
“Esses micropoderes são difíceis de perceber porque se manifestam na subjetividade. Identificá-los é essencial para compreender as engrenagens que sustentam as desigualdades raciais e pensar estratégias reais de enfrentamento ao racismo”, afirma o pesquisador.
Autor de 24 livros, sendo 15 dedicados às questões raciais, Manuel Alves é também colunista do portal Soteroprosa e responsável pelo perfil @debateracialpolitico. Entre suas obras recentes estão “Dicionário racial: termos afro-brasileiros e afins” (2024) e “História da raça, mestiçagem e branqueamento da população no Brasil” (2024).
Mais informações: @debateracialpolitico