Relógios inteligentes ganham espaço nos treinos, mas especialistas alertam para riscos da dependência de métricas
Cada vez mais presentes no dia a dia, os relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis vêm transformando a forma como as pessoas acompanham a saúde e a prática de atividades físicas. Informações sobre frequência cardíaca, qualidade do sono, gasto calórico e recuperação física estão disponíveis em tempo real, mas especialistas alertam que os dados fornecidos pela tecnologia devem ser encarados como ferramentas de apoio, e não como substitutos da avaliação profissional.
Segundo o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, o avanço dos chamados wearables trouxe benefícios importantes para a promoção da saúde, mas também aumentou a preocupação excessiva de muitos usuários com números e indicadores que nem sempre são compreendidos corretamente.
“O acesso às informações é positivo porque ajuda no acompanhamento da rotina e dos hábitos de vida. O problema surge quando a pessoa passa a acreditar que os dados, isoladamente, são capazes de definir sua condição física ou emocional”, explica.
Entre os indicadores mais observados pelos usuários está a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), métrica que avalia pequenas variações entre os batimentos cardíacos e pode fornecer informações sobre recuperação, fadiga e resposta do organismo aos treinamentos. De acordo com o especialista, a ferramenta pode ser útil para ajustar cargas de exercícios e monitorar o estado físico, desde que seja interpretada dentro de um contexto mais amplo.
Outro fenômeno que tem chamado atenção dos profissionais de saúde é a chamada ortossonia, caracterizada pela obsessão em atingir métricas consideradas ideais de sono e recuperação. O comportamento pode gerar ansiedade e criar uma dependência psicológica dos números apresentados pelos dispositivos.
“Há pessoas que acordam e consultam imediatamente a nota do sono. Se o resultado não é o esperado, elas acreditam que terão um dia ruim, mesmo se estiverem se sentindo bem. Isso mostra como a interpretação inadequada dos dados pode impactar o bem-estar”, observa Jauan.
Apesar dos cuidados necessários, os wearables também têm se mostrado aliados importantes na adoção de hábitos saudáveis. Alertas para caminhar, cumprir metas diárias e manter uma rotina ativa ajudam a aumentar a motivação, especialmente entre pessoas sedentárias.
Para o especialista, a tecnologia deve ser utilizada como um complemento ao acompanhamento profissional. “O que faz a diferença não é apenas coletar dados, mas saber interpretá-los de forma individualizada. Nenhum dispositivo consegue substituir a análise técnica de um profissional qualificado”, conclui.